Quarta-feira.
Contavam pouco depois das dezenove horas quando Marcelo entrou em casa
com três sacolas do Carrefour em cada braço. "Mariana, a gente precisa
conversar". Mariana, que vinha do banheiro com aquele creme nojento no
rosto, fingiu que não ouviu [ou não ouviu mesmo, não tenho certeza],
passou pela sala, recolheu as sacolas até a cozinha e foi desempacotando
e guardando as compras. Marcelo, um
pouco vacilante, na sala, prosseguiu: "Eu tava na prateleira de iogurte
procurando o Activia de ameixa, quando li o seu recado, 'amor n eskce o
detergente bjs', e aquilo me fez parar tudo e pensar sobre a gente,
sabe, sobre quê que a gente tá fazendo da nossa vida." Da cozinha,
silêncio. A voz foi ganhado confiança: "Eu li você me chamando de 'amor'
e soou estranho...inadequado, eu acho. Parece que a nossa relação
perdeu o encanto, sei lá, acho que a gente se acomodou demais, acabou
ficando distante, não sei. E eu não quero mais isso, cara." Da cozinha,
silêncio. "Olha, eu te considero pra caralho, e acho que sempre vou te
amar, só que, sei lá, não te vejo mais como mulher, acho que a gen.." No
que irrompe Mariana pela sala, o rosto enrubescido de raiva:
- Porra, Marcelo, esqueceu o detergente!
- Porra, Marcelo, esqueceu o detergente!
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