Duas vezes por semana pego o trem em Nilópolis que vem de Japeri rumo à Central do Brasil. Sempre sobe alguém vendendo um pacote desses de produto industrializado, tipo Skinny e Cheetos. No pacote está escrito Costelinha de Porco. Na propaganda gritada está dito Costelinha de Porco. Dia desses o passageiro ao meu lado comprou a Costelinha de Porco. Passava um quarto das seis horas. Olhei pro punhado na mão dele: pedaço de pele frita. Não havia costela em nenhum sentido que normalmente daríamos a "costela". Talvez não tivesse havido sequer um porco. Nada disso importa. Aquilo é Costelinha de Porco porque foi dito que aquilo é Costelinha de Porco. Porque às seis horas da tarde no trem velho aquilo é Costelinha de Porco, da mesma maneira que o cálice é o sangue; o pão é o corpo.
Aí você pega esse pedaço de pele frita e chama de Como-É-Grande-O-Meu-Amor-Por-Você. Aí você pega esse pedaço de pele frita e chama de Realização. Aí você pega esse pedaço de pele frita e chama de Felicidade. E porque você chamou, isso é. Corpo, sangue e Costelinha de Porco.