segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Sacramentos

Duas vezes por semana pego o trem em Nilópolis que vem de Japeri rumo à Central do Brasil. Sempre sobe alguém vendendo um pacote desses de produto industrializado, tipo Skinny e Cheetos. No pacote está escrito Costelinha de Porco. Na propaganda gritada está dito Costelinha de Porco. Dia desses o passageiro ao meu lado comprou a Costelinha de Porco. Passava um quarto das seis horas. Olhei pro punhado na mão dele: pedaço de pele frita. Não havia costela em nenhum sentido que normalmente daríamos a "costela". Talvez não tivesse havido sequer um porco. Nada disso importa. Aquilo é Costelinha de Porco porque foi dito que aquilo é Costelinha de Porco. Porque às seis horas da tarde no trem velho aquilo é Costelinha de Porco, da mesma maneira que o cálice é o sangue; o pão é o corpo.

Aí você pega esse pedaço de pele frita e chama de Como-É-Grande-O-Meu-Amor-Por-Você. Aí você pega esse pedaço de pele frita e chama de Realização. Aí você pega esse pedaço de pele frita e chama de Felicidade. E porque você chamou, isso é. Corpo, sangue e Costelinha de Porco.

domingo, 19 de maio de 2013

Dos Testemunhos Outonais.

A tradição de Pindorama prescreve que, no primeiro mês após o início do outono, seu povo deve se dirigir ao deus supremo, representado na forma de um leão, e declara a ele tudo o que lhe foi provido no último ano por fortuna ou labuta. O deus, então, prescreve a oferenda a ser entregue. No ritual, o indivíduo também abre mão de tudo que lhe é próprio imaterialmente como alma ou espírito, tornando-se então, tão somente, “pessoa física”.

Quinta-feira, 18:12h.

Hoje, no ônibus, a menina bonita sentada do meu lado falando ao telefone resumiu, em uma frase, o eterno conflito entre os imperativos dionisíacos do coração e as ponderações apolíneas da Razão:

- Também te amo, mas tá foda.

A Verdade como não-correspondência.

Ela, atrás, com uma luva descartável e um saquinho plástico, caminhava de cócoras, acompanhando cada passo dele, guardando com zelo e carinho tudo que lhe era oferecido.

Ele, à frente, insensível, cagando e andando.

As palavras e as coisas.

- Valéria, tente entender: quando eu disse que te amava, o que eu queria dizer é que você tava linda naquele vestido.

Quarta-feira, 19:27h.

E ontem me veio o taxista contando a história de como ele começou a carreira militar, largou pra casar, virou gerente de padaria, começou a cheirar cocaína por causa do trabalho puxado, perdeu o emprego por causa da cocaína, largou a cocaína por causa da Igreja, virou motorista de ônibus, teve duas filhas lindas mas separou porque foi chifrado e agora tá casado com alguém que lhe dá valor apesar de ser bem mais nova. E ainda concluiu, antes de me deixar no Santo Cristo: "Por enquanto tá legal, mas vai saber, né. A vida é isso mermo: um 'por enquanto' atrás do outro"

Ganhou gorjeta de um real, e ao sair do carro eu fingi que não reparei nos pontinhos brancos embaixo do seu nariz.

Sexta-Feira, 14:54h.

Hoje, em frente ao mictório do Subway, escrito na parede: "Quero chupar $%# grossa". Logo abaixo, a resposta: "Você precisa encontrar Jesus". À direita, a tréplica: "Jesus tem $%# grossa?". E continuava o colóquio mais acima: "Tem coisa melhor, a salvação." E por fim: "Salvação é legal, mas prefiro $%# grossa".

Sobre iaiás e ioiôs.

Hoje, na Leader Magazine do Catete, enquanto curtia um ar-condicionado pra evitar o sol que entardecia furioso lá fora, eu observava a senhora-meia-idade-ainda-dá-um-caldo passeando pelas prateleiras de lingerie. Pegou um pacote com três. Sempre vem uma bege, para as férias da depilação, uma preta pro aniversário do marido, e uma vermelha, pra ele. Comprando três de uma vez sai mais barato, todo mundo sabe. Ela deu um suspiro e comprou uma preta, avulsa. Edgar é um bom marido. É fiel, respeitador, e seu aniversário tá chegando. Mas não há lealdade ou respeito que compensem uma vida sem fogo e paixão.

(8 de fevereiro de 2012)

Pais e filhos.

O Filho crucificado, diante da multidão que se ria dele e lhe atirava pedras, olhava para o alto e rogava: "Perdoai-os, ó Pai, eles não sabem o que fazem."

Ao seu ouvido respondia o Pai: "E tu, sabes?"

Love Parade.

Às seis e meia da tarde, caminhando pra casa, viro a esquina da Praia do Flamengo com a Correa Dutra. Como sempre, me deparo com o pequeno congestionamento formado por carros com insulfilm nos vidros na porta de um motel - uma cena que simboliza, ao mesmo tempo, a falência do matrimônio monogâmico e a ascensão profissional do secretariado.

Sexta-feira, 18h, no Árabe do Largo do Machado.

"Tá vendo? Podia ter feito tudo direito, mas qué sempre saír da linha, qué sempre fazer merda! Agora já era, também não adianta chorar, acabou c'a tua vida. E a vergonha lá na frente de todo mundo?! Mas dessa vez tu vai ver só. Pode ter certeza! Me aguarde, isso não vai ficar assim! E termina logo esse kibe, que a gente tem que ir pra casa! A vida é assim: cada um paga pelo erro que faz, e você vai pagar - ah, se vai!". O réu, sete ou oito anos, franzino, em silêncio, cabeça baixa, os olhos vermelhos levantados para a magistrada de ocasião - quarenta-e-poucos, o corpo ligeiramente obeso espremido em um vestido rosa que havia muito tempo não lhe era mais digno. De vez em quando o menino, fungando o nariz sem resfriado, fazia um aceno tímido com a cabeça, enquanto mastigava vagarosamente o bolo de carne que mal cabia na sua mão. Parecia um crime hediondo, mas era só uma reprovação em Matemática.

Enquanto tanto se debate na justiça pública, na privacidade dos tribunais domésticos a maioridade penal já foi reduzida há muito tempo.

McDonald's, 16h.

A moça semi-roliça-quase-gordinha-dá-um-caldo ao meu lado parece incapaz de relaxar os músculos maxilares, alternando continuamente as contrações entre o colóquio afetivo com a amiga no celular e as mordidas no quarteirão-com-queijo:

- [com a boca cheia de comida] é o que eu tô falando, amiga: se ele não gosta de mim então por causa de quê ele ia me levar praquele churrasco com família e tudo? mensagenzinha de fêicibúki, torpedinho de de tô-cum-saudade, e agora vem com esse papo de tô-curtindo, de preciso-de-um-tempo-sozinho...tománocu...é, cê tá certa...pois é, muito sem-noção...mas eu tô bem, amiga, sabe...ah, eu só quero um homem de verdade, cansei de moleque...isso, claro...[com um pedaço de carne saindo pelo canto da boca] ah, eu tô ótima...é mesmo, e sabe? tô muito melhor agora...é, você tá certa, a fila aaaanda hahaha!...então sábado fechô, né?

E a cada frase, ou meia-frase, ou palavra mais longa, lá vinha outra dentada gulosa da não-amada. Impregnava-se daquele respeito-próprio que a gente mede em calorias, e mordia o sanduíche como se o coração ingrato do não-amante lhe fosse servido com duas fatias de queijo cheddar.

Sala dos professores, 15:54h.

No recinto, só eu e uma desconhecida colega ao celular:
- Olha só, eu não ofendo ninguém, eu não xingo ninguém, eu tenho compostura, sempre tive educação. Mas se aquela filha da puta inventar de foder com a vida do meu filho eu sento a mão na cara dela e arranco sangue daquela piranha!

Vocação.

Passou a adolescência sonhando em se tornar poeta marginal. Aos vinte e dois pegou o .38 no alto do armário do pai, escondido atrás dos enfeites natalinos. Pegou o 342 no Centro, sentido Jardim América. Chegando em Vigário Geral, altura da Xavier Pinheiro, sacou a arma. O ônibus estava vazio, mas ainda levou dez celulares, três relógios, pouco menos de trezentos reais e a satisfação de quem já percorreu metade do caminho: "Agora só falta a poesia."

M&Ms (2).

Quarta-feira. Contavam pouco depois das dezenove horas quando Marcelo entrou em casa com três sacolas do Carrefour em cada braço. "Mariana, a gente precisa conversar". Mariana, que vinha do banheiro com aquele creme nojento no rosto, fingiu que não ouviu [ou não ouviu mesmo, não tenho certeza], passou pela sala, recolheu as sacolas até a cozinha e foi desempacotando e guardando as compras. Marcelo, um pouco vacilante, na sala, prosseguiu: "Eu tava na prateleira de iogurte procurando o Activia de ameixa, quando li o seu recado, 'amor n eskce o detergente bjs', e aquilo me fez parar tudo e pensar sobre a gente, sabe, sobre quê que a gente tá fazendo da nossa vida." Da cozinha, silêncio. A voz foi ganhado confiança: "Eu li você me chamando de 'amor' e soou estranho...inadequado, eu acho. Parece que a nossa relação perdeu o encanto, sei lá, acho que a gente se acomodou demais, acabou ficando distante, não sei. E eu não quero mais isso, cara." Da cozinha, silêncio. "Olha, eu te considero pra caralho, e acho que sempre vou te amar, só que, sei lá, não te vejo mais como mulher, acho que a gen.." No que irrompe Mariana pela sala, o rosto enrubescido de raiva:
- Porra, Marcelo, esqueceu o detergente!

M&Ms.

E a Mariana falou Marcelo não come o bolo todo e o Marcelo entendeu eu ainda te amo meu gordo lindo mesmo que você coma o bolo todo e comeu o bolo todo mas o que ela queria dizer é não come o bolo todo seu gordo maldito e então a Mariana falou vou almoçar com a Rê e o Pedro e o Marcelo entendeu vou almoçar com a Rê e o Pedro mas o que a Mariana queria dizer é vou dar pro Vinicius que toca pífano e faz mestrado em Ciência Política e que além de me entender - ou talvez justamente por isso - nunca comeria o bolo todo.